Karolina Vieira

Quase a metade dos fumantes brasileiros diz querer largar o cigarro, mas sentem dificuldade diante da tentação provocada pela propaganda dos produtos e também pela falta de mais programas de aconselhamento e apoio à cessação do vício na rede de saúde pública. Isso é o que mostra a terceira edição da pesquisa global de projeto sobre o controle do tabagismo divulgada na última semana.

O estudo contou com a participação de mais de 215 mil pessoas em diversos países e aponta que pelo menos três em cada cinco pessoas que experimentam cigarros pela primeira vez se tornam fumantes diários, ainda que temporariamente. O resultado do levantamento mostra ainda o quanto o tabaco pode ser viciante e reforça necessidade de prevenir consumo por jovens, especialmente os adolescentes.

Peter Hajek, professor da Universidade Queen Mary, em Londres, e líder do estudo afirma que esta é a primeira vez que foi documentado a capacidade viciante que os cigarros têm depois de uma única experiência em uma amostragem tão grande. “No desenvolvimento de comportamentos adictos, sair da experimentação para a prática diária é um marco importante, já que isso implica que a atividade recreacional está se tornando uma necessidade compulsiva”, destaca o cientista.

Preocupações também foram expressadas com relação aos cigarros eletrônicos de que eles seriam tão viciantes quanto os cigarros convencionais, mas este não parece ser o caso, segundo Hajek. “É notável como poucos não fumantes que experimentam cigarros eletrônicos se tornam consumidores diários, enquanto uma grande proporção dos não fumantes que experimentam cigarros convencionais se tornam fumantes diários”.

A pesquisa ainda mostra que o Brasil não conseguiu banir por completo a propaganda de cigarros. No país, apesar de a publicidade do tabaco ser proibida nos meios de comunicação desde 2000, ela ainda está presente nos pontos de venda na forma de iluminados, coloridos e atrativos displays e a indústria tabagista pode realizar atividades promocionais e patrocinar eventos culturais e esportivos expondo suas marcas.

Para a diretora-geral do Instituto Nacional do Câncer (Inca), Ana Cristina Mendes, o resultado desse estudo é como se fosse um grito de socorro do próprio fumante, um chamado por ajuda de fora para dentro para largar o vício já que, como todo dependente, ele encontra muitas dificuldades para fazer isso sozinho e por isso políticas públicas precisam ser implantadas de maneira emergencial.