Karolina Vieira

Feitos à base de anfetaminas, os emagrecedores anfepramona, femproporex e mazindol viraram tema de intenso debate após o Congresso liberar seu uso no Brasil, sob o apoio das sociedades médicas, mesmo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmando que os riscos à saúde são maiores que os benefícios. Os medicamentos, conhecidos como anorexígenos, atuam no sistema nervoso central para gerar aversão a comida e inibir o apetite e são utilizados em tratamentos para perda de peso. A Anvisa chegou a vetar os remédios em 2011, mas uma nova lei foi sancionada pela presidência da república no mês passado permitindo a volta deles.

O retorno dos remédios divide opiniões. Segundo a agência reguladora, os medicamentos trazem riscos a pessoas com predisposições a doenças cardíacas e psiquiátricas, e seus benefícios contra a obesidade são limitados. Pelos mesmos motivos, as substâncias também foram proibidas nos Estados Unidos e na Europa, com exceção da anfepramona, comercializada no mercado americano. “Quando a Anvisa fez essa avaliação, em 2011, ficou comprovado que os efeitos adversos eram perigosos, que as pessoas ficavam dependentes, que havia riscos para os sistemas cardiovascular e neurológico e que os benefícios eram limitados. A perda de peso, por exemplo, não era consistente”, afirmou à BBC Brasil o médico Jarbas Barbosa, diretor-presidente da Anvisa.

Porém, entidades como o Conselho Federal de Medicina (CFM), a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso) comemoram o retorno dos medicamentos ao país. “Se há grupo de medicamentos com consenso entre sociedades médicas (sobre seu uso) e dispensado (liberado) em outros países, acreditamos que é direito do médico brasileiro ter esses medicamentos em seu arsenal contra a obesidade, mesmo com as limitações dessas substâncias”, defende Fábio Trujilho, presidente da SBEM.

Mesmo concordando com a liberação, as entidades alertam que há riscos associados aos remédios e que eles devem ser usados em casos específicos e por curtos períodos de tempo, já que podem causar dependência química.

Diante da polêmica, a indústria farmacêutica recebeu a volta dos emagrecedores com preocupação.  “É algo que enfraquece a posição da Anvisa, que deveria ser a única responsável pela liberação de produtos farmacêuticos”, diz Nelson Mussolini, presidente-executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma). Mesmo com a nova lei, avalia Mussolini, a indústria farmacêutica não deve voltar a produzir os inibidores, já que não será possível registrá-los na Anvisa. Por isso, diz, esse mercado não irá mudar no curto-prazo. “Sabemos que em vários países esses produtos foram contestados pela sua falta de segurança e de eficácia. Então não enxergamos que a indústria nacional vá fabricar esses medicamentos”, pontua.

Um dos argumentos utilizados pela Anvisa para proibir as anfetaminas emagrecedoras foi que os benefícios eram poucos se comparados aos riscos que esses medicamentos apresentavam. Um estudo do órgão regulador na época apontou que as substâncias garantiam perda de peso apenas no curto prazo – ou seja, após o tratamento os pacientes voltavam a engordar. De acordo com a endocrinologista Renata Sacramento, existe de fato um “efeito rebote”, quando o paciente perde peso, mas depois passa a ter mais do que tinha antes.

Apesar de divergirem dos riscos e benefícios das substâncias, os especialistas concordam que aqueles que precisam emagrecer não poderão escapar da reeducação alimentar e da mudança de hábitos, como a prática de atividades físicas. Essas medidas levam mais tempo, mas garantem um quadro de emagrecimento saudável e sustentável para o paciente. “Como tudo na vida, perder peso é difícil. Precisa mudar a alimentação, não fumar, fazer atividade física. O problema é que quando chega um remédio, as pessoas pulam etapas e não querem fazer a parte mais importante”, avalia Sacramento.

Ela afirma que a melhor maneira de enxergar a medicação é como parte de um tripé que possui outros elementos também essenciais num programa de emagrecimento. “Às vezes, o paciente já chega ao consultório com a ideia fixa de que precisa de um medicamento e cabe ao profissional educá-lo e deixar claro que não há efeito imediato sem consequências graves”, avalia.