Um grupo de pesquisadores brasileiros iniciou, em 2016, uma pesquisa em parceria com pesquisadores do Departamento de Saúde do Estado de Nova York para verificar o nível de exposição das crianças brasileiras aos chamados “desreguladores endócrinos”. As substâncias podem causar contaminação que interfere na síntese e ação de hormônios responsáveis por funções como metabolismo, crescimento, desenvolvimento, reprodução, sono e estado de ânimo.

Foi analisada a concentração de 65 desreguladores endócrinos em urinas de 300 crianças das cinco regiões do país, com idades entre 6 e 14 anos. Os resultados mostraram que os compostos químicos associados ao uso de cosméticos, produtos de cuidado pessoal e plásticos foram encontrados em concentrações elevadas, principalmente nas regiões Norte e Nordeste do país, e em maior concentração nas meninas.

Para algumas substâncias como o triclosan (desodorantes e sabonetes antibacterianos), alguns parabenos (conservantes) e alguns benzofenonas (esmaltes, protetores solares, produtos de maquiagem e produtos de cabelo), as meninas tinham o dobro de concentração no corpo quando comparadas aos meninos. Segundo a consultoria Euromonitor International, em 2017 o Brasil foi o terceiro maior mercado no mundo no segmento de cosméticos e produtos de cuidado pessoal voltados ao público infantil.

“Os dados da pesquisa mostram que crianças brasileiras estão expostas a alguns desreguladores hormonais em concentrações maiores do que aquelas encontradas em países como EUA, Canadá e China, que realizam esse estudo mais rotineiramente”, diz Bruno Alves Rocha, pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto e autor do estudo, publicado na revista científica Environmental International.

Em artigo publicado na revista Science of the Total Environment, pesquisadores calcularam a ingestão diária de ftalatos e um terço das crianças apresentam níveis tóxicos. A substância compõe fragrâncias em produtos como sprays de cabelo, loções pós-barba, sabões, xampus e perfumes e também são usados como solventes e na fabricação de plásticos mais flexíveis ou resistentes (presente em produtos de limpeza, resinas e plásticos como o policarbonato, plástico filme, embalagens e brinquedos).

Como se prevenir?

O ideal é minimizar ao máximo a contaminação porque ainda não se sabe exatamente qual a quantidade segura de contato com essas substâncias. É fundamental ler os rótulos dos produtos e procurar evitar aqueles que tenham desreguladores em sua composição. Outra recomendação é com o cuidado ao manusear embalagens de alimentos, que pode ocorrer a partir de fissuras causadas nas embalagens. Por isso, é recomendado não esquentar ou congelar alimentos em recipientes ou embalagens plásticas, priorizar vidro em vez de plásticos e evitar o consumo de alimentos enlatados (cuja embalagem é revestida de bisfenol A).

comida potes vidro

Riscos

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), dos 800 compostos químicos suspeitos de interferir no sistema hormonal, “apenas uma pequena fração” foi investigada. Apesar de divergências na literatura científica, em 2016, a Comissão Europeia divulgou uma lista com 66 compostos químicos avaliados de terem “clara evidência de perturbação da atividade endócrina”.

No mesmo ano, os Estados Unidos proibiram a venda de sabonetes antibacterianos barrando 19 ingredientes químicos, incluindo o triclosan (agente bactericida), sob a justificativa de não haver garantias de que essas substâncias sejam seguras. No Brasil, em 2011, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a presença do bisfenol A em mamadeiras destinadas a crianças de até 12 meses. Hoje sabe-se que a substância está associada à diabete mellitus e obesidade infantil, além de causar puberdade precoce e alterações na tireoide.

No estudo do pesquisador da USP urinas com altas concentrações de diferentes desreguladores também apresentaram maiores concentrações de 8OHDG, molécula que, em grandes quantidades, indica a ocorrência de lesão nas células e danifica o DNA favorecendo a ocorrência de obesidade, infertilidade, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer, principalmente aqueles relacionados ao sistema reprodutor.