Karolina Vieira

A “edição” de DNA vive uma “era de ouro” na ciência, graças a uma nova tecnologia chamada Crisp que é considerada a maior invenção científica de 2015 pela revista Science. Ela tem aplicações variadas, que incluem a possibilidade de remover falhas genéticas que causam doenças como o câncer de mama e fibrose cística. No experimento bem-sucedido mais recente, cientistas da Universidade de Saúde e Ciência do Oregon (EUA), do Instituto Salk e do Instituto de Ciências Básicas da Coreia do Sul permitiram que embriões modificados se desenvolvessem por cinco dias até interromper o experimento.

Eles focaram seus esforços na cardiomiopatia hipertrófica, doença relativamente comum, que afeta uma a cada 500 pessoas e faz com que o coração pare de bater repentinamente. A doença é causada por uma falha em um único gene, e portadores dele têm 50% de chances de transmitirem-no a seus descendentes. O estudo foi publicado no periódico Nature. A edição para corrigir esse gene defeituoso foi feita durante o processo de concepção. O esperma de um homem portador da cardiomiopatia hipertrófica foi injetado dentro de óvulos saudáveis e processado com a tecnologia Crisp para corrigir o defeito genético.

A taxa de sucesso não foi absoluta. Mesmo assim, 72% dos embriões gerados ficaram livres das mutações causadoras da doença cardíaca. De acordo com um dos líderes do experimento, o pesquisador Shoukhrat Mitalipov, todas as gerações descendentes do homem em questão carregariam essa correção genética, porque foi removida a variação de gene defeituoso da linhagem familiar. “Com essa técnica é possível reduzir o fardo dessa doença hereditária na família e, em último caso, da população humana”, afirma.

Antes desse experimento, foram feitas diversas tentativas de usar o Crisp para corrigir defeitos causadores de doenças sanguíneas. Mas não foi possível consertar célula por célula, o que resultou em um “mosaico” mesclando saudáveis e doentes. Na pesquisa mais recente, porém, esses obstáculos foram superados, mas isso não quer dizer que a técnica se tornará rotineira na ciência. A grande questão atual é como aplicá-la de forma segura, o que dependerá de mais e mais estudos.

Ao mesmo tempo em que a iniciativa traz alento a milhões de famílias, a técnica desperta debates éticos por causa da adulteração de DNA. Para Darren Griffin, professor de genética da Universidade de Kent, no Reino Unido, “talvez a maior questão – e provavelmente a que será mais debatida – é se deveríamos alterar fisicamente os genes de um embrião de fertilização in vitro. Não é uma questão simples. Ao mesmo tempo, deve entrar em cena o debate o quanto é aceitável ou não agir quando temos a tecnologia para prevenir doenças fatais”, disse.

A médica Yalda Jamshidi, especialista em medicina genômica na universidade londrina St George’s, explica que o estudo é o primeiro a mostrar, com edição genética, uma correção bem-sucedida e eficiente de uma mutação causadora de doenças no estágio inicial de embrião. “Embora estejamos apenas começando a entender a complexidade das doenças genéticas, a edição de genes provavelmente se tornará algo aceitável quando seus potenciais benefícios, tanto para indivíduos quanto para a sociedade, superarem os seus riscos”, finaliza.